Posologia da Fofoca

Eu jurava, de verdade, que os lugares mais “perigosos” pra reputação alheia eram salão de beleza e barbearia. Me enganei redondo. Descobri recentemente que existe um território ainda mais fértil pra fofoca: a farmácia do interior.

Dia desses, nessas andanças, precisei comprar um remédio, nada grave, só um comprimido pra dor de cabeça. Entrei na farmácia, aquele templo do ar-condicionado gelado e das prateleiras que parecem mais organizadas que cartório em dia de vistoria.

Mal atravessei a porta e já senti o olhar de raio X da balconista. Parecia me analisar não pra saber o que eu tinha, mas quem eu era. E como toda cidade pequena tem um radar social melhor que o da NASA, bastaram dois segundos pra ela soltar:
“Eu lhe conheço! O senhor não é aquele que trabalha na capital?”

Nem precisei responder. Ela mesma completou o currículo, lembrou o evento, o discurso e até a cor da camisa que eu usava no dia. Em menos de trinta segundos, eu já era uma espécie de celebridade no meio da prateleira de analgésicos.

Daí, pronto. A conversa engatou. Perguntou de onde eu vinha, se ainda morava na capital, se estava “bem de saúde”, aquele “bem de saúde” que é apenas o pretexto pra fofoca começar. E foi aí que a língua da senhora tomou forma de navalha: afiada, precisa e impiedosa.

Entre um “pois é” e um “mas menino, você soube?”, ela abriu o prontuário moral da cidade. Falou do sobrinho que tinha levado “gaia”, da moça que tinha casado com um prefeito, do rapaz do posto, da amiga vizinha que “anda muito diferente” e de um caso que, segundo ela, “todo mundo comenta, mas a moça e o rapaz foram morar na capital”.

Cada frase vinha com bula própria: efeitos colaterais, contraindicações e um leve toque de veneno. Eu, que só queria um analgésico, saí medicado com uma overdose de informações que nem o rádio teria coragem de divulgar.

No final, paguei, agradeci, e ela ainda completou, com aquele ar de quem sabe tudo e mais um pouco:
“Vá com Deus, meu filho. E se for passar mais dias por aqui… cuidado com o tempo frio que faz de noite.”

Saí da farmácia pensando: a senhora da farmácia sabe mais da vida do povo do que da bula do remédio. E, se um dia resolver escrever um livro, vai faltar tinta pra tanta história e personagem. Porque ali, o remédio mais vendido ainda é a boa e velha conversa fiada.