No palco das pesquisas eleitorais, o povo assiste, com copo na mão e descrença nos olhos, ao espetáculo mais antigo da política: o teatro dos antagonismos públicos e das alianças noturnas. Nas redes sociais, os gladiadores digitais empunham discursos de ódio, prometem revoluções e juram jamais dividir o mesmo teto. Mas quando a madrugada chega, os discursos se dissipam como fumaça de charuto. E o vinho, esse cúmplice antigo das conveniências, volta a circular nas taças de cristal das conversas privadas.
Enquanto o povo debate apaixonado nas calçadas e nos grupos de WhatsApp, uns vestidos de azul, outros de vermelho, nas varandas silenciosas das mansões adversários brindam. Falam baixo, riem das próprias estratégias e selam o destino da plateia que, do lado de fora, ainda acredita na guerra que eles encenam.
As pesquisas, essas personagens de temporada, aparecem como bússolas distorcidas, servindo ora de consolo, ora de chantagem. São o novo vinho da política: cada um interpreta como quer, saboreia o resultado que mais lhe agrada, oferece à imprensa o rótulo conveniente e guarda no bolso os números que não convém mostrar.
Nos bastidores, ninguém dorme. Ninguém é totalmente inimigo. O eleitor, esse espectador fiel, ainda tenta entender o roteiro. Mas a política é um jogo jogado entre taças e sorrisos, um tabuleiro em que o brinde vale mais do que o voto, e onde o “traz mais uma taça” é o verdadeiro acordo de paz.
O povo assiste, comenta, compartilha, se indigna. Eles, os donos das madrugadas, brindam à sobrevivência. Amanhã, no primeiro post do dia, serão novamente rivais. Mas esta noite, o vinho é tinto, e a política, mais uma vez, é servida à temperatura ambiente.