O mercado bilionário dos cursos de medicina

O curso de medicina, durante décadas, foi sinônimo de excelência acadêmica, vocação e compromisso social. Hoje, é também um dos produtos mais rentáveis do mercado educacional brasileiro. Segundo levantamento publicado pelo Extra Classe em março/2025, o setor movimenta R$ 26,4 bilhões por ano. Cada vaga pode ser negociada entre R$ 600 mil e R$ 3 milhões, em um comércio que se expande a cada novo campus, muitas vezes inaugurado em cidades sem hospital de referência e sem estrutura mínima.

A engrenagem desse negócio bilionário é bem conhecida nos bastidores: a chamada “máfia das liminares”. Instituições que não cumprem os requisitos técnicos do Ministério da Educação (MEC) conseguem, na Justiça, autorizações provisórias para iniciar turmas. O resultado é previsível: cursos funcionando sem credenciamento adequado e alunos matriculados sem garantia de diploma reconhecido. Alguns desses cursos são revendidos a conglomerados nacionais e estrangeiros, como a compra da Multivix pelo grupo francês Galileo e a aquisição do Centro de Ensino Superior de Pinhais pela Cruzeiro do Sul Educacional por R$ 184 milhões.

O MEC exige, no papel, infraestrutura, corpo docente qualificado e pelo menos cinco leitos do SUS por vaga de medicina, além de avaliar a real necessidade social do curso na região. Mas na prática, como admitiu a própria pasta em audiência pública na Câmara em junho/2025, a judicialização fragiliza o controle. Enquanto o Estado corre atrás, o mercado corre na frente, e fatura.

Não se trata apenas de abrir faculdades; trata-se de um modelo de negócio que, como alerta a Associação Paulista de Medicina (APM), ameaça transformar a medicina em mercadoria de alto giro, enfraquecendo o compromisso ético e social da profissão. O estudante, nesse cenário, não é um futuro médico, é um consumidor de um produto caro, vendido com a promessa de status e estabilidade, mas muitas vezes entregue com qualidade duvidosa.

Há iniciativas que tentam frear essa distorção, como o projeto de lei que cria o Exame Nacional de Proficiência em Medicina, exigindo comprovação de competência para exercer a profissão. Mas enquanto isso não se torna realidade, o país corre o risco de colocar nas ruas médicos sem preparo adequado, com consequências diretas para a saúde pública.

Não basta regular no papel. É preciso impedir que decisões judiciais se tornem atalhos para driblar a fiscalização. Porque, se continuarmos nesse caminho, a medicina brasileira não será lembrada pela qualidade de seus profissionais, mas pela quantidade de zeros que cabem no pix.