O Brasil tem muito o que aprender com o Brasil

O Brasil se acostumou a olhar para fora. A copiar modelos estrangeiros, a importar soluções de quem não conhece nossas dores, a seguir fórmulas que muitas vezes fracassam porque ignoram o que temos de mais poderoso: a força que nasce do próprio povo.

Mas chegou a hora de olhar para dentro.

De Norte a Sul, o Brasil pulsa com experiências que funcionam, que transformam vidas, que mostram que é possível fazer diferente, e melhor. O que falta, então, não é ideia, nem talento. Falta coragem. Coragem de romper com os ciclos viciados de desconfiança e desprezo pelas próprias soluções. Falta visão política de enxergar que o futuro pode ser escrito com as mãos do presente, se ao menos reconhecermos as mãos certas.

No sertão, há escolas premiadas internacionalmente pela qualidade do ensino. Em favelas, há projetos culturais que salvam mais jovens do que qualquer política de segurança. Na floresta, há turismo de base comunitária que respeita a terra e dá dignidade a quem nela vive. Nas universidades públicas, há inovação, ciência e inclusão social que não se aprende em Harvard, mas que o Brasil insiste em não valorizar.

É sintomático que a gente aplauda quando um brasileiro é reconhecido lá fora, mas ignore o impacto que ele já tem aqui dentro. É vergonhoso que governantes se emocionem com soluções estrangeiras enquanto sufocam iniciativas locais que resistem com coragem. É cruel que ainda tenhamos políticos que preferem terceirizar soluções a apoiar o que floresce no quintal de casa.

O Brasil tem muito o que aprender com o Brasil. Com a favela que criou arte e virou museu. Com o SUS que enfrentou a pandemia quando o mundo duvidava. Com o povo indígena que preserva a floresta enquanto o agronegócio a destrói. Com o professor que alfabetiza em condições precárias, mas com vocação gigante. Com a mulher preta que lidera um quilombo e ensina o mundo o que é ancestralidade.

Nosso maior erro talvez seja não acreditar que somos capazes. Ou pior: acreditar, mas sabotar.

Não precisamos importar esperança. Precisamos cultivá-la. Não precisamos buscar heróis fora de casa. Precisamos parar de destruir os nossos. O Brasil real, o que dá certo, o que resiste, o que cria, o que educa, o que transforma, esse Brasil precisa ser ouvido, replicado, respeitado.

Mais do que nunca, é preciso fazer política com olhos brasileiros. É hora de virar a chave: do complexo de vira-lata para o orgulho de quem sobrevive todos os dias à ausência do Estado, e ainda encontra tempo para criar soluções que o próprio Estado deveria adotar.

O Brasil tem muito o que aprender com o Brasil. E talvez o maior ato político do nosso tempo seja justamente esse: fazer o país ouvir o país.